Pretória, África do Sul – A visita de Estado de três dias do Presidente do Quénia, William Ruto, à África do Sul marca uma nova etapa no fortalecimento das relações bilaterais entre as duas maiores economias das respetivas regiões africanas. O encontro visa aprofundar a cooperação económica, política e estratégica, com destaque para o comércio, investimentos, transportes marítimos, desenvolvimento portuário e segurança regional.
Em entrevista, o analista político angolano José Gama destacou que a visita surge na sequência dos compromissos assumidos durante a deslocação do Presidente sul-africano Cyril Ramaphosa a Nairóbi. Segundo o especialista,
África do Sul e Quénia consolidaram as suas relações após o fim do apartheid, desenvolvendo uma parceria cada vez mais sólida ao longo das últimas décadas.
Atualmente, o volume de negócios entre os dois países tem registado crescimento constante, situando-se entre 600 milhões e quase mil milhões de dólares.
Para José Gama, trata-se do encontro entre duas economias de referência no continente: a África do Sul como principal potência económica da África Austral e o Quénia como um dos motores económicos da África Oriental.
Comércio e Investimento em Expansão
A cooperação económica é um dos pilares centrais da visita.
O Quénia exporta flores, produtos agrícolas e tecnologia para o mercado sul-africano, enquanto a África do Sul fornece produtos agrícolas, serviços financeiros e tecnologia.
A presença crescente de bancos sul-africanos no mercado queniano demonstra a intensificação das relações financeiras entre os dois países. Apesar do crescimento anual das trocas comerciais rondar os 3%, especialistas consideram que existe ainda um enorme potencial por explorar.
Cooperação Marítima e Desenvolvimento Portuário
Outro destaque da agenda é o acordo sobre cooperação marítima e desenvolvimento portuário.
Os portos sul-africanos, especialmente o de Durban, desempenham um papel estratégico não apenas para a economia nacional, mas também para vários países da região.
Segundo José Gama, uma maior integração entre as infraestruturas portuárias da África do Sul e do Quénia poderá facilitar o transporte de mercadorias entre a África Austral, a África Oriental e mercados internacionais, sobretudo na Ásia, contribuindo para aumentar a competitividade logística do continente.
Impulso à Zona de Comércio Livre Continental Africana
A aproximação entre Pretória e Nairóbi também poderá acelerar a implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA). Como líderes económicos da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e da Comunidade da África Oriental (EAC), os dois países possuem influência suficiente para impulsionar a integração económica continental.
José Gama considera que a parceria poderá funcionar como um catalisador para aproximar os diferentes blocos regionais e concretizar os objetivos da Agenda 2063 da União Africana, que visa transformar África numa potência económica integrada e sustentável.
Segurança Regional e Combate ao Terrorismo
Para além da economia, a cooperação em matéria de segurança ocupa um lugar importante na agenda bilateral.
O Quénia possui vasta experiência no combate ao terrorismo na África Oriental, conhecimento que poderá ser partilhado com os países da África Austral.
O analista sublinha que a experiência queniana poderá ser particularmente útil no combate à ameaça terrorista em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, região que continua a enfrentar ataques de grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico.
Além da luta contra o terrorismo, Pretória e Nairóbi podem reforçar a colaboração em iniciativas de mediação diplomática, resolução de conflitos e promoção da estabilidade política em várias regiões do continente, incluindo a República Democrática do Congo.
Parceria com Visão Continental
A visita de William Ruto à África do Sul demonstra a crescente importância da cooperação entre potências regionais africanas.
Mais do que fortalecer as relações bilaterais, o encontro representa uma oportunidade para impulsionar a integração económica, melhorar as ligações comerciais e reforçar a capacidade africana de enfrentar desafios comuns em matéria de desenvolvimento e segurança.
Analistas acreditam que o aprofundamento desta parceria poderá servir de exemplo para outras nações africanas, contribuindo para uma África mais integrada, competitiva e influente no cenário internacional.
