Por Éloge Willy Kaneza
Nelson Adelino Dembo já foi conhecido em Angola por outro nome: DJ Gangsta. Pioneiro do movimento hip-hop angolano no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, Dembo construiu a sua reputação através da música, da rádio e da cultura juvenil, antes de se tornar um dos activistas políticos mais contestatários do país.
Hoje, Dembo reside no Maine (EUA), após ter fugido de Angola na sequência do que descreve como ameaças, vigilância e perseguição política associadas ao seu activismo durante as eleições angolanas de 2022. Contudo, o exílio, assume, não calou a sua voz.
“Cresci numa família revolucionária”, revelou Dembo à Amjambo Africa numa entrevista exclusiva. “O meu pai combateu o colonialismo português e sobreviveu ao massacre de 27 de Maio de 1977”, afirmou, referindo-se a um dos episódios mais sombrios da história pós-independência de Angola, no qual milhares de pessoas foram mortas, desaparecidas ou prisioneiras na sequência de uma insurreição frustrada e da subsequente repressão por parte do governo em funções. “A resistência e a luta pela liberdade fazem parte da minha história.”
Dembo explicou que a sua consciência política despertou através da cultura hip-hop, da literatura e da observação da sociedade angolana. Com o tempo, tornou-se conhecido por mobilizar a juventude e por criticar abertamente o partido no poder, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que governa o país desde a independência, em 1975.
“Comecei a questionar a sociedade em que vivia”, recorda. “Eventualmente, a minha voz transformou-se numa voz de intervenção.”
Em Angola, Dembo ganhou notoriedade através do activismo, de podcasts e de campanhas de mobilização cívica. Segundo o próprio, o seu programa online “360°” tornou-se num dos críticos mais ferozes do governo, antes de as autoridades o terem alegadamente encerrado.
Dembo acredita que o seu activismo atingiu um ponto de viragem durante as eleições de 2022 em Angola, altura em que incentivou publicamente a participação dos jovens e o apoio a candidatos da oposição e a vozes da sociedade civil. “Pela primeira vez, conseguimos aumentar a representação da oposição no Parlamento”, sublinhou. “Isso tornou-me num alvo.”
Após o escrutínio, e de acordo com os relatos de Dembo, o activista recebeu avisos confidenciais de que a sua vida corria perigo. Afirma ainda que as autoridades lhe impuseram restrições que o obrigavam a apresentar-se regularmente esquadras de polícia e o proibiam de participar em manifestações públicas.
Apesar destas limitações, Dembo continuou a pronunciar-se no espaço digital e acabou por fugir de Angola. Relatou que as autoridades circularam posteriormente a sua imagem em aeroportos e postos fronteiriços na tentativa de o localizar. “Em 2023, tornei-me num dos homens mais procurados em Angola”, disse. “Mas recusei-me a ficar calado.”
Agora estabelecido no Maine, Dembo continua a organizar acções no seio da diáspora angolana através do Movimento TODOS, uma plataforma que diz ter sido fundada nos Estados Unidos para promover o engajamento cívico, a participação democrática e a unidade nacional entre os angolanos.
O activista defende que o sistema político angolano permanece dominado por um único partido e sustenta que o país necessita urgentemente de reformas democráticas antes das eleições de 2027. Como parte desse esforço, Dembo e o Movimento TODOS preparam para o próximo mês um grande fórum em Washington, D.C. O encontro reunirá activistas, académicos, intelectuais e membros da diáspora africana para debater o futuro político de Angola, a governação democrática e o papel dos cidadãos na condução da mudança política rumo às eleições de 2027. “O objectivo é defender a democracia, a ordem constitucional e a voz do povo”, apontou Dembo. “Queremos um futuro onde os angolanos escolham verdadeiramente os seus líderes.”
Ao longo da entrevista, Dembo enfatizou repetidamente a importância da participação juvenil e a influência da diáspora africana nas lutas democráticas em todo o continente. “Os jovens são o futuro”, vincou. “Onde houver opressão, a coragem tem de emergir.”
O activista reflectiu igualmente sobre o custo pessoal do seu empenho: a separação da família, o exílio, a incerteza e anos vividos sob constante pressão. No entanto, apesar dos sacrifícios, Dembo assegura que continua a ser movido pela esperança. “O mundo continua a mover-se porque as pessoas ainda têm esperança”, afirmou. “A esperança é o que nos mantém vivos.”
Dembo conclui referindo que a sua mensagem se estende para lá das fronteiras de Angola, dirigindo-se aos jovens africanos em geral — tanto no continente como na diáspora. “Temos de acreditar que um amanhã melhor é possível”, declarou. “Mas o amanhã só chega quando as pessoas agem.” Para Dembo, a causa já não se resume apenas a Angola, mas sim à defesa da liberdade, da dignidade e da esperança democrática para as futuras gerações em toda a África.
