A 18 de dezembro de 1974, os líderes do MPLA e da UNITA selaram no Luso um histórico acordo de dez pontos que abriu caminho para a descolonização de Angola e preparou a cimeira trilateral de Alvor
Luena (antigo Luso), Moxico — A história política de Angola guarda datas que marcaram profundamente o destino da nação e redefiniram o rumo da luta de libertação. Entre esses momentos decisivos está 18 de dezembro de 1974, dia em que António Agostinho Neto, líder do MPLA, e Jonas Malheiro Savimbi, líder da UNITA, protagonizaram no Luso — atual cidade do Luena, província do Moxico — um dos encontros mais emblemáticos do processo de independência nacional.
Num contexto de profundas transformações políticas em Portugal e no continente africano, os dois líderes apertaram as mãos e iniciaram uma reunião histórica de concertação política e estratégica, numa altura em que o fim do domínio colonial português se tornava cada vez mais inevitável após a Revolução dos Cravos, ocorrida em Lisboa a 25 de Abril de 1974.
O encontro no Moxico tornou-se um símbolo raro de aproximação política entre movimentos nacionalistas que, apesar das divergências ideológicas e militares, reconheciam a necessidade urgente de construir uma posição comum em defesa da soberania angolana.
Da Zâmbia ao Luso: uma viagem com peso histórico
A reunião resultou de uma iniciativa diplomática considerada estratégica.
António Agostinho Neto deslocou-se da Zâmbia até ao Luso a convite direto de Jonas Savimbi. O momento exigia decisões rápidas e uma leitura política clara do cenário internacional.
Naquele período, Portugal procurava interlocutores capazes de representar os movimentos de libertação e conduzir a transição de soberania. Ao mesmo tempo, crescia a pressão diplomática internacional para que Angola apresentasse uma posição política minimamente coordenada diante das negociações que se aproximavam.
No centro da agenda estava um objetivo comum: criar condições políticas para a independência e evitar que as divergências internas comprometessem o futuro do país.
O histórico acordo de dez pontos
Após horas de conversações intensas, MPLA e UNITA chegaram a um entendimento formalizado num documento político composto por dez pontos fundamentais.
O pacto representou um compromisso público entre os dois movimentos e estabeleceu princípios considerados essenciais naquele momento decisivo da luta de libertação.
Entre os principais pontos acordados estavam:
- Cessar imediatamente as hostilidades militares entre as forças no terreno;
- Suspender a propaganda ofensiva e os ataques políticos mútuos nos meios de comunicação;
- Promover uma convivência política pacífica e respeitosa, priorizando os interesses nacionais;
- Criar mecanismos de diálogo permanente entre os movimentos;
- Defender uma posição coordenada nas negociações com Portugal, visando garantir a soberania plena de Angola.
A assinatura do acordo foi recebida como um gesto político de grande impacto.
Para muitos observadores da época, tratava-se de uma demonstração concreta de maturidade política diante de um dos momentos mais decisivos da história contemporânea angolana.
“A unidade dos movimentos de libertação era essencial para garantir uma transição de poderes estável e consolidar a independência de Angola.”
O Luso abriu caminho para Alvor
O entendimento alcançado no Luso teve repercussões imediatas.
Percebendo que o processo político precisava incluir também a FNLA para garantir legitimidade nacional mais ampla, Jonas Savimbi articulou, dias depois, novos contactos diplomáticos com vista à aproximação entre os principais movimentos de libertação.
A sequência desses entendimentos levou à realização de encontros alargados que culminariam, semanas depois, na assinatura do histórico Acordo de Alvor, em janeiro de 1975, entre Portugal, MPLA, FNLA e UNITA.
Foi esse processo político que definiu formalmente a transferência de poderes e estabeleceu o calendário que conduziria Angola à proclamação da independência.
Uma data que permanece viva na memória nacional
Décadas depois, o encontro de 18 de dezembro de 1974, no coração do Moxico, continua a ser lembrado como um momento decisivo de convergência política entre líderes que representavam diferentes correntes da luta nacionalista.
Mais do que um aperto de mão entre Agostinho Neto e Jonas Savimbi, o encontro simbolizou a tentativa de colocar o interesse maior da independência acima das rivalidades e tensões do período.
Na memória política angolana, o Luso permanece como palco de um dos momentos mais relevantes da caminhada rumo à soberania nacional — um dia em que a diplomacia e o diálogo se transformaram em instrumentos de construção da nova Angola.
