AMSTELCOM À MERCURY: O CUSTO DA TRANSIÇÃO, A PRESSÃO SOBRE A SONANGOL E O LUGAR DE BRUNO NETO
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AMSTELCOM À MERCURY: O CUSTO DA TRANSIÇÃO, A PRESSÃO SOBRE A SONANGOL E O LUGAR DE BRUNO NETO

AMSTELCOM À MERCURY: O CUSTO DA TRANSIÇÃO, A PRESSÃO SOBRE A SONANGOL E O LUGAR DE BRUNO NETO

Luanda – O recente rebranding da MSTelcom para Mercury, anunciado como destaque na feira ANGOTIC, pretendia marcar o início de uma nova era de eficiência e autossustentabilidade no sector das telecomunicações em Angola. No entanto, fontes próximas ao processo revelam que a transição está a ser ensombrada por graves problemas de gestão interna, desvios financeiros e uma forte resistência à reestruturação, o que ameaça diretamente o plano estratégico da petrolífera Sonangol de se desfazer de ativos não-core.No centro desta polémica está Bruno Neto, atual Vogal da Comissão Executiva da Mercury (Ex-MSTelcom). Integrante da liderança da empresa desde 2011, o gestor tem assistido de forma inabalável à exoneração de sucessivas comissões executivas, enquanto os resultados financeiros da operadora apresentam uma preocupante e contínua trajetória descendente.A sua permanência ininterrupta no cargo, apesar do evidente declínio financeiro da empresa, não é obra do acaso. Ao longo da última década, Bruno Neto soube tecer uma teia intrincada de alianças e tráfico de influências nos corredores do poder e no Conselho de Administração da Sonangol. A sua utilidade para estas esferas superiores reside na sua capacidade de atuar como mediador de interesses não declarados, garantindo a proteção financeira de uma elite restrita através dos orçamentos da subsidiária. É esta blindagem relacional que o torna, na prática, insubstituível e imune às reformas exigidas pelo mercado.### O Esquema ACS e a Gestão ParalelaA título de conhecimento, a ACS (Angola Communication Systems) – empresa integralmente detida pela MSTelcom – tem servido como o principal braço operacional e um autêntico “saco azul” sob a alçada direta de Bruno Neto e Edson Muncoca. Neste esquema, estabeleceu-se uma perniciosa relação de compadrio: em troca de lealdade e subordinação, Bruno Neto facilitou que Muncoca assumisse a gestão de empresas privadas prestadoras de serviços que operam, quase em exclusividade e sob contratos altamente inflacionados, ao serviço da própria ACS.As principais irregularidades apontadas fixam-se na gestão do capital humano e nos fluxos financeiros opacos entre as entidades, nomeadamente: * **Discrepâncias Salariais e Desvios:** Existe um grave desfasamento na folha de pagamentos. Na grelha salarial submetida à Sonangol, os salários reportados rondam os 5 milhões de kwanzas por funcionário; no entanto, o valor que efetivamente chega à conta dos trabalhadores é de apenas 1,5 milhões de kwanzas. Multiplicando esta diferença pelos quase 300 funcionários da ACS, gera-se um enorme excedente financeiro mensal. Este esquema de sobrefaturação salarial tem contado com a conivência operacional de quadros intermediários como Rui Tavares, que facilitam a tramitação destas folhas adulteradas e o controlo das margens desviadas. * **Resistência à Integração:** Atualmente decorre um processo de transformação liderado pela KPMG, que provocou reboliços nos últimos meses na MSTelcom, com mais de 50 colaboradores realocados em unidades core e não-core da Sonangol. Segundo fontes internas da Direção de Recursos Humanos, verifica-se uma forte resistência na transição definitiva do pessoal da ACS para a esfera direta da Sonangol. Esta movimentação é vista pelos atuais gestores como uma ameaça frontal ao seu controlo discricionário sobre os orçamentos de pessoal.### CONTRATOS DE LOGÍSTICA E DESVIOS DE FUNDOS: O CASO “ELIFE”Para além da vertente de recursos humanos, a área de compras e contratação da empresa tem estado sob forte escrutínio. Fontes apontam que contratos milionários de assistência técnica e manutenção da frota automóvel foram direcionados de forma privilegiada para a oficina ELIFE, um veículo empresarial indiretamente ligado ao gestor Bruno Neto. Este circuito de contratação direta tem facilitado um escoamento sistemático de fundos que deveriam, por direito e necessidade, ser canalizados para a modernização da rede de telecomunicações.### INVESTIMENTOS FALHADOS E A “MAMADEIRA” DA SONANGOLO histórico de aplicações financeiras da operadora agrava o cenário de gestão danosa. Um recente investimento de cerca de 20 milhões de dólares, inicialmente destinado à expansão da rede móvel, foi internamente classificado como um fracasso comercial e técnico, não gerando qualquer retorno ou contribuindo para a autonomia da empresa.Com a integração da Mercury no Programa de Privatizações (PROPRIV), o objetivo do acionista Estado era claro: cortar a dependência financeira e obrigar a operadora a ser autossustentável. Contudo, a influência exercida por Bruno Neto junto dos decisores do Conselho de Administração da Sonangol tem funcionado como um escudo protetor.Segundo fontes próximas ao processo, deste investimento inicial de 20 milhões, cerca de 4,5 milhões de dólares teriam sido desviados para um esquema de partilha que compromete diretamente a cúpula da Sonangol, seduzida pelo atual vogal. Integram esta rede de favorecimentos Baltazar Miguel (com quem Bruno Neto tem uma ligação pessoal e familiar de proximidade), Osvaldo Inácio (Administrador do Pelouro para a MSTelcom) e a sua assessora Catila Machado, cuja ascensão vertiginosa e mal fundamentada continua a ser vista com enorme desconfiança pelos quadros históricos da petrolífera.Esta teia de influências e contratos lesivos impede a Sonangol de cumprir o seu papel de reestruturação organizacional. O resultado é a perpetuação da Mercury como a eterna “mamadeira” financeira da petrolífera estatal, inviabilizando a sua afirmação como operador competitivo no mercado livre.Mesmo com a renovação da Comissão Executiva, Bruno Neto mantém-se estrategicamente nos bastidores, preservando o controlo efetivo sobre as áreas-chave de compras e contratos. A Mercury enfrenta agora o desafio inadiável de auditar as contas e rastrear os milhões geridos à sombra da antiga governaçãoeste o modelo corporativo que o Estado angolano pretende manter?Serão estas as instruções dadas pelo Executivo, ou existem “rebeldes” que continuam a sangrar os cofres públicos por conveniência?Como se encontra o caso desta Comissão Executiva perante o Tribunal de Contas e perante os sucessivos processos que se amontoam na Procuradoria-Geral da República (PGR)?Será que com a atual liderança de Pedro Mendes de Carvalho da PGR, este processo vai finalmente avançar, ou existem mãos invisíveis a protelar a justiça?Até quando os Administradores da Sonangol continuarão a acobertar Bruno Neto?### Nota Final: Um apelo à Razão e ao Rigor institucionalO Estado não pode ignorar os estatutos e a natureza jurídica das suas empresas públicas ou participadas. O propósito fundamental de entidades como a Mercury é prestar serviços de excelência, criar valor económico e salvaguardar os dinheiros públicos, e não servir de veículo de enriquecimento ilícito para grupos de interesses organizados. Apela-se, por isso, ao bom senso institucional.O Presidente da República não pode permitir-se estar alheado ou distraído face às graves micro-dinâmicas de corrupção que corroem estas subsidiárias. Estão aqui configurados indícios fortíssimos de crimes de abuso de confiança e peculato que exigem responsabilização severa. É imperativo que o Chefe de Estado tome conhecimento pleno desta realidade e determine imediatamente às entidades competentes (PGR, IGAE, Tribunal de Contas) uma investigação profunda e implacável para apurar os factos e responsabilizar os envolvidos. O impacto do roubo do erário público vai além dos balanços financeiros; tem um custo social devastador que afeta diretamente o desenvolvimento da nação e a vida dos angolanos.

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