Como o dinheiro ilicito de Manuel Vicente financiou a transição de poder em Angola
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Como o dinheiro ilicito de Manuel Vicente financiou a transição de poder em Angola

Das reservas acumuladas na Sonangol aos bastidores de Espanha em 2017: como a fortuna de Manuel Vicente financiou a transição de poder em Angola e redefiniu a geopolítica interna do MPLA.

Luanda — A trajectória e a influência sustentada de Manuel Vicente na política angolana não podem ser dissociadas do controlo financeiro e estratégico que exerceu durante décadas na Sonangol. Ao longo do período em que presidiu ao gigante petrolífero estatal e, posteriormente, como Vice-Presidente da República, Manuel Vicente consolidou uma teia global de liquidez, participações bancárias e fundos soberanos operados no exterior. É precisamente esse capital — acumulado na era da bonança petrolífera — que serve de combustível para a sua permanência como o principal “homem das sombras” e conselheiro financeiro da transição política promovida por João Lourenço.

A Reunião de Espanha e o Financiamento da Ruptura de 2017

Entre o final de 2016 e o início de 2017, perante a constatação de que João Lourenço promoveria uma reforma de Estado que romperia com o núcleo duro do antigo regime, reuniões secretas em Espanha tentaram travar a sua candidatura. Diante de cenários radicais equacionados para afastar João Lourenço — que iam desde estratégias de descredibilização económica, como o envolvimento na questão das dívidas ocultas, ao esvaziamento das contas do Estado —, Manuel Vicente opôs-se aos planos e optou por blindar a ascensão de JLO.

Essa aliança estratégica terá assentado em três pilares operacionais e financeiros decisivos.

Injecção de liquidez e apoio internacional: Manuel Vicente terá assumido o financiamento directo da campanha de 2017 e utilizado as suas ligações internacionais para abrir portas aos lobistas em Washington, viabilizando a aproximação de João Lourenço aos Estados Unidos e liquidando passivos financeiros preexistentes para assegurar a aceitação do novo líder junto das instituições norte-americanas.

Logística e segurança paralela: O financiamento terá permitido reformular a segurança pessoal e a mobilidade de João Lourenço durante a pré-campanha. A aeronave do empresário Luís Nunes teria passado a assegurar as deslocações do candidato, enquanto a logística de inteligência e protecção teria sido gerida nos bastidores pelo general Fernando Miala.

Patrocínio das infra-estruturas e créditos internacionais: Ao longo dos dois mandatos da era JLO, o capital e a influência de Manuel Vicente terão continuado a desempenhar um papel na articulação de linhas de crédito e na viabilização do investimento em grandes obras públicas, mantendo o antigo Vice-Presidente uma posição de influência sem ostentação de cargos oficiais.

O Regresso dos Que Nunca Foram e a Linha de Sucessão

A reaparição e a maior visibilidade mediática de Manuel Vicente na recta final do actual ciclo político voltam a colocar o antigo Vice-Presidente no centro das interpretações sobre a futura sucessão do poder em Angola.

De acordo com leituras de bastidores, a arquitectura financeira e a rede de influência associadas a Vicente poderão voltar a desempenhar um papel no apoio ao candidato escolhido pelo partido no poder para os próximos pleitos eleitorais.

A consolidação de alianças internas e a recente actuação das instituições judiciais — particularmente em processos relacionados com candidaturas internas no MPLA — alimentam igualmente interpretações segundo as quais o chamado “homem das sombras” nunca se afastou completamente do centro das decisões.

Nesta perspectiva, Manuel Vicente permaneceria como uma figura de influência financeira e geopolítica na arquitectura do poder angolano, mesmo sem exercer actualmente um cargo político de primeira linha.

Nota editorial: As afirmações sobre reuniões secretas, financiamento de campanhas, movimentação de fundos, utilização de aeronaves, intervenção de responsáveis de segurança e influência sobre decisões políticas são alegações graves. Para publicação jornalística, devem ser atribuídas a fontes identificáveis ou documentadas e submetidas ao contraditório dos visados.

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