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PORTUGAL:Caixotes a arder, capacetes azuis e “desmobilização completa” que nunca aconteceu: a madrugada de espera pela polícia na Praça D. João I

A primeira tentativa de aproximação, quando os relógios se aproximavam das 00h30 — e, como tal, do limite legal para a permanência dos manifestantes ali — partiu da PSP. Pediram para falar com Tiago Machado, advogado ligado ao movimento. Assim aconteceu, no topo da praça, zona onde os poucos agentes da polícia que estiveram presentes ficavam a vigiar.

Passada a mensagem de vontade de falar com os promotores do movimento, Tiago Machado foi procurar quem pudesse servir como tal. Desceu a escadaria junto ao Teatro Rivoli — espaço que chegou a ser evocado num discurso da assembleia, em memória da ocupação histórica de 2006 contra a intenção da autarquia de entregar a concessão do espaço a privados — e começou a deambular pela praça.

No centro do recinto, o advogado encontra Mariana e pergunta por João Silveira (porta-voz até este sábado). Traz na mão um gelado que tinha comprado minutos antes. É nessa altura que Diana, uma das mais recentes porta-vozes do coletivo (embora a organização preferisse não usar esse termo), lhe deixa um aviso: dali em diante, antes de abordar a polícia ou os órgãos de comunicação social, Tiago Machado teria de esperar para que fossem indicados representantes da assembleia para a conversa. “É também pela tua própria segurança”, diz-lhe.

O ambiente borbulhava. Minutos antes destas conversas intermitentes com a polícia, deflagrou um foco de incêndio junto a contentores do lixo nas imediações da praça. Alguns agentes da polícia municipal correram para o local e um homem ainda tentou usar um extintor para apagar as chamas, mas o fogo só ganhou força. Os bombeiros acabariam por o controlar, em poucos minutos.

Já as teorias espalharam-se em segundos pela multidão. Um rapaz chegou a relatar à PSP ter visto quatro jovens a atear fogo aos caixotes, um deles com equipamento desportivo e máscara cirúrgica na cara. A PSP tomou nota. Pouco depois, novo sobressalto: um homem que corria pela estrada arremessou uma garrafa de vidro contra um carro em andamento que não parou. E também a noite seguiu.

Foi já depois da hora combinada que o grupo escolhido para reunir com a PSP se apresentou. Cumprimentaram o subintendente Eduardo Silva com um aperto de mão e duas pessoas identificaram-se como advogadas. Começaram logo por frisar que não eram chefes de nada, sublinhando que aquele não era “um grupo organizado”.

O subintendente foi direto, mas calmo na explicação. Avisou que, se a multidão não desmobilizasse, teria de ser elaborado um auto de notícia a remeter para tribunal. Os representantes do protesto ainda tentaram testar uma alternativa: perguntaram se seria viável fazer uma “desmobilização parcial”, sensibilizando quem quisesse sair sem forçar o grupo todo. A resposta? A “desmobilização deve ser completa”. E lembrou que a partir da meia-noite e meia era ilegal fazer ruído — uma regra que caiu por terra escassos minutos depois, quando os megafones voltaram a ecoar na praça.

Primeiro, e entre vários fait-divers sobre o SNS e a Palestina, apelos a “destruir o capitalismo e os seus cães fascistas” e a proposta para “arrastar a CGTP para uma greve geral ibérica” (com data apontada a 11 de novembro), votou-se que ficariam a pernoitar na praça

“Tarefas revolucionárias concluídas com sucesso”: a assembleia popular que votou pernoitar com tendas e pediu “demissão”

Horas antes, pouco depois das 19h, tinha arrancado a assembleia popular. Apesar de ter durado mais de uma hora, as votações para cada um dos cinco pontos da ordem de trabalhos foram resolvidas em segundos. De braço no ar, com gritos, acenos ou palmas: eram estas as formas de demonstrar o sentido de voto. E toda a praça pôde participar na votação.

Por esse motivo — o de qualquer pessoa que passasse poder votar e logo a seguir desaparecer —, vários elementos ligados ao movimento da acampada que geriam as intervenções e a logística da concentração na praça fizeram várias vezes o mesmo pedido aos manifestantes: “Não desmobilizem, por favor.”

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