TAL MÃE, TAL FILHO… A DINASTIA CARRINHO: O FRACASSO ANUNCIADO NA REVOLUÇÃO AGRÍCOLA EM ANGOLA
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TAL MÃE, TAL FILHO… A DINASTIA CARRINHO: O FRACASSO ANUNCIADO NA REVOLUÇÃO AGRÍCOLA EM ANGOLA

De um pequeno bar familiar fundado em 1993, no Lobito, por Dona Leonor Lusitano Candundo Carrinho, nasceu o que a propaganda oficial apresenta como um dos maiores grupos empresariais privados de Angola. A transição da gestão para o seu filho, Nelson Carrinho, projetou a empresa como uma alegada plataforma integrada de agronegócio, produção alimentar, logística e retalho, vendida como o pilar da segurança alimentar e da redução das importações no país.

Contudo, por trás do discurso de patriotismo económico e da narrativa de sucesso familiar, esconde-se um rasto de falhas operacionais, distorções de mercado e práticas financeiras controversas que colocam em causa o real impacto do grupo no desenvolvimento nacional.

O Colapso Agrícola e o Abastecimento Residual

Apesar dos volumosos incentivos estatais e do acesso facilitado a recursos públicos, a capacidade do Grupo Carrinho em suprir as necessidades da população revelou-se um fiasco estrutural:

Incapacidade de Cobertura: Os produtos alimentares da Carrinho não cobrem sequer 2% das necessidades da população angolana, deixando o mercado vulnerável e dependente de bens a preços avultados.

Exploração do Produtor Local: A relação do conglomerado com os pequenos agricultores tem sido classificada por críticos como um modelo de exploração assimétrico — comparado a práticas coloniais —, no qual os camponeses enfrentam tabelas de pagamento sufocantes e margens irrisórias.

Preços Inacessíveis: A promessa de produtos baratos e acessíveis deu lugar a uma tabela de preços inflacionada, inviabilizando o acesso da maioria das famílias angolanas à cesta básica.

Desvio de Foco Financeiro: Do Campo ao Setor Bancário

Em vez de canalizar o capital disponível e o apoio do Estado para a estruturação do setor agrícola e a consolidação da cadeia de produção nacional, a liderança do grupo optou por uma agressiva expansão financeira:

  • Aquisições Bancárias Controversas: A compra de ativos financeiros, como o BCI (Banco de Comércio e Indústria), desviou investimentos prioritários da produção alimentar para o controlo da banca.
  • Investigações sobre o BCI: A transação e as operações do BCI permanecem sob forte escrutínio e na mira de investigações ligadas ao uso de liquidez e garantias públicas para alavancar negócios privados.

Filiais no Exterior e Operações Financeiras

A criação de filiais na Europa, designadamente em Portugal, levanta sérias suspeitas sobre a estratégia de gestão de capital do grupo. Analistas e denúncias do setor apontam que estas estruturas externas servem de ponte para a transferência de fundos e triangulação financeira rumo a jurisdições de fraca tributação ou paraísos fiscais, esvaziando a economia nacional do capital necessário para o desenvolvimento do interior.

O Balanço de uma Dinastia

Três décadas após a sua fundação, o legado do Grupo Carrinho reflete uma contradição profunda: o que começou como uma história de empreendedorismo familiar transformou-se num império acusado de cartelização, fracasso na produção alimentar e dependência de favores políticos para sustentar a sua expansão bancária e internacional.

Escrutínio e Opacidade: O BCI permanece sob forte escrutínio devido ao tratamento reservado aos grandes devedores do banco antes da privatização e às suspeitas de utilização do próprio balanço do banco para alavancar outras operações comerciais e financeiras do conglomerado.

A Compra da quota do BPI no Banco de Fomento Angola — BFA (2026)

Numa operação que consolida a transição do grupo do setor alimentar para uma hegemonia financeira, o Grupo Carrinho (através do veículo Congolian Financial / CFSA) fechou o acordo para a compra da totalidade da participação de 33,35% que o português Banco BPI detinha no Banco de Fomento Angola (BFA), avaliada em 388,5 milhões de euros.

Concentração de Poder na Banca: Somada a participações indiretas já ligadas ao universo do grupo (como os fundos AXIOS e ASSET), a Carrinho passou a exercer uma influência determinante no segundo maior banco de Angola em ativos, ombreando com a Unitel como os maiores blocos acionistas da instituição.

A Paradoja do Capital: A alocação de cerca de 388,5 milhões de euros na banca — somada às participações noutros bancos, como o Keve — expõe o profundo desalinhamento estratégico do grupo: enquanto o setor agrícola angolano definha por falta de infraestrutura rural, irrigação, sementes e logística, centenas de milhões de euros são mobilizados para operações financeiras no topo da pirâmide bancária.

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