Governadora da Lunda-Norte   transformou a província como sua propriedade
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Governadora da Lunda-Norte transformou a província como sua propriedade

A erosão interna do MPLA na Lunda-Norte: Quando a inexperiência política transforma o descontentamento em voto de protesto

A nomeação de Filomena Elizabeth Chitula Miza Aires para o cargo de Governadora Provincial da Lunda-Norte chegou a ser recebida por muitos como uma oportunidade de renovação e de reposicionamento político da província.

Contudo, passado algum tempo, cresce entre sectores da própria estrutura do MPLA um sentimento de frustração e descontentamento, alimentado por decisões que, aos olhos de muitos militantes, parecem estar a fragilizar a coesão interna do partido.

O problema não reside apenas nas escolhas administrativas em si, mas na percepção de que determinadas nomeações estarão a privilegiar relações de proximidade, confiança pessoal e quadros externos à estrutura partidária local, em detrimento da experiência acumulada e da militância dos quadros da própria província.

É neste contexto que surgem críticas à influência atribuída ao Secretário do DAPEES, Luís Quitamba, a quem sectores internos apontam como uma das figuras com forte peso na orientação de determinadas decisões políticas e administrativas.

Se tal percepção persistir, o risco é que a estrutura provincial passe a ser vista pelos próprios militantes como um espaço onde a lealdade partidária e o percurso político têm menos peso do que as relações de proximidade com o núcleo dirigente.

O problema das nomeações municipaisUm dos aspectos que mais tem provocado inquietação é a escolha de administradores municipais para localidades estratégicas como Lucapa, Dundo, Mussungue e Cambulo.A crítica central é a aparente desvalorização dos quadros locais.

Em vez de se apostar na promoção gradual de dirigentes e militantes que construíram o seu percurso dentro do partido e conhecem profundamente a realidade política, social e administrativa da Lunda-Norte, tem-se instalado a percepção de uma política de “importação de quadros”, sob o argumento de que a província não dispõe de recursos humanos suficientemente preparados.

Esse argumento, porém, pode produzir um efeito político perverso: se existem quadros locais com experiência e militância, mas estes são sistematicamente preteridos, cria-se frustração, ressentimento e, sobretudo, a sensação de que a própria estrutura partidária deixou de reconhecer o mérito dos seus militantes.

O caso de Lucapa é particularmente sensível. Segundo críticas que circulam dentro da própria estrutura partidária, o administrador municipal teria sido posteriormente integrado nos CAPs e indicado para uma posição de liderança partidária, apesar de não possuir um percurso anterior de militância no MPLA. Situação semelhante é apontada relativamente ao Dundo.

Independentemente da confirmação documental de cada caso, o simples facto de esta percepção ganhar força entre os militantes já constitui, por si só, um problema político.

Um partido não perde força apenas quando perde eleições; começa a enfraquecer quando os seus próprios militantes deixam de acreditar que o mérito, a dedicação e a militância são critérios relevantes para a ascensão interna.Mussungue: o símbolo de uma insatisfação crescente

A recente nomeação para Mussungue tornou-se outro ponto de contestação.

A escolha de uma administradora considerada por sectores locais como tendo reduzida experiência administrativa e política é vista como mais um exemplo daquilo que alguns militantes entendem ser uma política de substituição dos quadros locais por pessoas próximas do círculo de confiança da liderança provincial.

Circulam, inclusive, alegações sobre relações pessoais de proximidade entre alguns dos nomeados e a Governadora e Primeira-Secretária Provincial.

Essas alegações, contudo, deveriam ser devidamente comprovadas antes de serem tratadas como factos.

Mas há aqui uma questão política mais profunda: mesmo quando uma nomeação é legal, ela pode ser politicamente desastrosa se for percebida como nepotista ou clientelista pela própria base partidária.

É precisamente essa percepção que precisa de ser combatida.O verdadeiro perigo pode estar dentro do próprio partido

O maior perigo para o MPLA na Lunda-Norte talvez não esteja nos seus adversários políticos, mas no crescimento silencioso do descontentamento dentro da própria organização.

Militantes desmotivados, quadros preteridos, dirigentes locais que sentem que as suas carreiras foram bloqueadas e estruturas municipais que deixam de se reconhecer nas decisões superiores podem transformar-se num poderoso voto de protesto em 2027.

O eleitor não precisa necessariamente de abandonar publicamente um partido para deixar de votar nele.

Muitas vezes, a ruptura começa silenciosamente: o militante deixa de mobilizar, deixa de participar, deixa de defender a organização e, no momento do voto, transforma a sua frustração acumulada numa escolha diferente.

É aqui que reside o verdadeiro perigo.

Aqueles que hoje são tratados apenas como “descontentes internos” podem amanhã constituir uma das principais forças.

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