O papel de Jonas Savimbi na longa disputa pelo futuro político de Angola
Uma imagem histórica remete para os anos em que Jonas Malheiro Savimbi procurava projectar internacionalmente a posição da UNITA perante o regime instalado em Luanda. A trajectória do líder da UNITA ficaria profundamente ligada à guerra civil angolana, mas também às negociações que, décadas mais tarde, desembocaram nos Acordos de Bicesse e na passagem formal do sistema de partido único para a democracia multipartidária.
Por: Redacção
Luanda — No contexto indicado para esta fotografia, Jonas Malheiro Savimbi encontrava-se no sul de Angola, em 1976, num período marcado pela consolidação do poder do MPLA e pelo recrudescimento do confronto político-militar que se seguiu à independência.
Segundo a informação histórica associada à imagem, Savimbi concedia uma entrevista ao escritor e jornalista francês Dominique de Roux. Há registo independente de que De Roux esteve efectivamente com Savimbi em Angola em 1976: em Setembro desse ano, Le Monde publicou um testemunho do escritor francês sobre o encontro com o líder da UNITA na floresta angolana.
A afirmação de que esta entrevista específica foi publicada pelo Le Figaro, posteriormente reproduzida na primeira página do Diário de Notícias e provocou um protesto diplomático do Governo angolano merece, contudo, confirmação nos arquivos dessas publicações antes de ser apresentada como facto documental.
Savimbi e a oposição ao sistema de partido único
A figura de Savimbi permanece uma das mais controversas da história contemporânea angolana. Para os seus apoiantes, representou durante décadas a resistência política e militar contra o sistema de partido único dirigido pelo MPLA e contra a orientação marxista que caracterizou a República Popular de Angola. Para os seus críticos, a sua responsabilidade na prolongada guerra civil e, sobretudo, a retoma do conflito depois das eleições de 1992 constituem partes incontornáveis da avaliação histórica do seu percurso.
É, porém, historicamente demonstrável que Angola viveu durante anos sob um sistema monopartidário e que a transição para o multipartidarismo ocorreu no início da década de 1990. As próprias fontes oficiais angolanas reconhecem que os Acordos de Bicesse incluíram a “transição para a democracia multipartidária”, culminando nas primeiras eleições gerais multipartidárias de 1992.
Bicesse transformou a confrontação em negociação política
Um dos momentos fundamentais dessa trajectória aconteceu em 31 de Maio de 1991, quando Jonas Savimbi e José Eduardo dos Santos assinaram os Acordos de Bicesse.
Os acordos estabeleceram o cessar-fogo, a formação de forças armadas unificadas e as condições para eleições multipartidárias. A RTP recorda que o entendimento pretendia pôr termo à guerra civil e implementar um sistema democrático com eleições livres.
Foi, portanto, também através da negociação entre o Governo do MPLA e a UNITA de Savimbi que Angola chegou às primeiras eleições multipartidárias da sua história, realizadas em 29 e 30 de Setembro de 1992. A União Interparlamentar regista que alterações constitucionais naquele ano permitiram o multipartidarismo e que 18 forças políticas disputaram as eleições.
Um legado que continua a dividir interpretações
Elevar o papel histórico de Savimbi não exige apagar as contradições da guerra. A sua contribuição para a pressão contra o monopartidarismo e a sua participação decisiva nas negociações de Bicesse fazem parte da história política de Angola; da mesma forma, fazem parte dessa história a rejeição dos resultados eleitorais de 1992 pela UNITA, a retomada das hostilidades e o prolongamento de um conflito devastador. Observadores internacionais consideraram, em termos gerais, aquelas eleições livres e justas, embora a UNITA tenha contestado os resultados.
Por isso, mais de meio século depois da independência, Savimbi continua a suscitar leituras profundamente diferentes. Para uma corrente significativa da oposição angolana, permanece como símbolo da luta contra o Estado de partido único e pela implantação do pluralismo. Para outros, é inseparável das consequências humanas e materiais de décadas de guerra.
O que a documentação histórica permite afirmar com segurança é que Savimbi foi um dos protagonistas centrais do confronto que moldou Angola pós-independência e um dos dois signatários do acordo que abriu formalmente o caminho para o multipartidarismo e para as primeiras eleições competitivas do país.
A fotografia de 1976 ganha, nesse contexto, um significado que ultrapassa o momento registado: retrata uma época em que a disputa sobre o modelo político de Angola ainda era travada principalmente pelas armas e pela batalha diplomática internacional — muitos anos antes de os adversários se sentarem à mesa para negociar a abertura política que mudaria formalmente o sistema angolano.
