Maria Antónia Nelumba e a Tragédia de Canacassala: A Crónica de uma Incompetência Anunciada no Bengo
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Maria Antónia Nelumba e a Tragédia de Canacassala: A Crónica de uma Incompetência Anunciada no Bengo

A morte trágica de 29 jovens angolanos nas entranhas de uma mina de exploração ilegal de ouro em Canacassala, no município de Nambuangongo, não é apenas uma fatalidade da natureza ou um mero acidente de percurso. É, acima de tudo, o resultado sangrento e catastrófico da gritante incapacidade de quem tem o dever constitucional e administrativo de governar e proteger a província do Bengo.

Falar em “revolta” das famílias não é força de expressão jornalística; é a reação legítima de uma comunidade que vê os seus filhos serem enterrados vivos enquanto as autoridades locais assistem, de braços cruzados, à proliferação de uma atividade que toda a gente sabe onde e como opera.

A responsabilidade política e moral por este banquete de sangue tem rostos bem definidos na estrutura do poder provincial: a Governadora Provincial, Maria Antónia Nelumba, e o Delegado do MININT e Comandante Provincial da Polícia Nacional, o Comissário Delfim Kalulu Inácio. Ambos falharam de forma categórica naquilo que é a premissa básica das suas funções: a preservação da ordem pública e a salvaguarda da vida humana.

Uma liderança que só age após o sepultamento de 29 cidadãos não exerce autoridade; limita-se a gerir os danos da sua própria omissão.

É inadmissível que uma atividade económica ilegal de grande escala, que movimenta centenas de pessoas, equipamentos e redes de contrabando à luz do dia, tenha passado despercebida ao aparelho de segurança comandado pelo Comissário Kalulu Inácio. Onde andavam os serviços de inteligência policial? Onde estavam as patrulhas e as barreiras de fiscalização que, com tanta eficácia, surgem noutros contextos para reprimir cidadãos indefesos? A alegada “fiscalização rigorosa” que agora se anuncia no terreno, após a tragédia, soa a uma hipocrisia ultrajante. É o clássico “fechar as portas do palheiro depois de a boiada ter fugido”.

Por outro lado, a Governadora Maria Antónia Nelumba não pode sacudir a água do capote fingindo que o problema se resolve com o envio tardio de psicólogos e assistentes sociais para consolar as mães que choram os seus filhos. A liderança política do Bengo tem demonstrado uma gritante falta de visão socioeconómica. O garimpo ilegal prolifera porque falta ao executivo provincial a capacidade de criar alternativas de emprego reais para a juventude, de fomentar o desenvolvimento local e de implementar políticas de inclusão que retirem estes jovens das garras da mineração artesanal suicida.

O colapso da mina de Canacassala expõe a nu a fragilidade das instituições e a inércia dos seus dirigentes. Mandar a polícia fazer “vistas grossas” ou fingir que o garimpo é um fantasma invisível até que a terra desabe é uma postura de cumplicidade por omissão.

Os 29 jovens que perderam a vida em Nambuangongo mereciam um Governo Provincial atento e uma polícia rigorosa na prevenção, e não apenas na contagem de cadáveres. A permanência de Maria Antónia Nelumba e de Delfim Kalulu Inácio nos seus respetivos cargos, sem uma assunção clara de culpa e sem consequências políticas imediatas, será o maior insulto à memória das vítimas e à dor de toda a província do Bengo. Angola não pode continuar a enterrar o seu futuro na lama da negligência governativa.

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