A nomeação de um foragido da justiça com “perfil vermelho” para liderar o Gabinete de Compliance expõe a responsabilidade direta do PCA da ENDIAMA na fragilização e na conivência com a corrupção dentro da empresa pública.
LUANDA O princípio da integridade corporativa e da moralidade pública sofreu um golpe devastador no sector diamantífero angolano, arrastando o Presidente do Conselho de Administração (PCA) da ENDIAMA E.P., José Manuel Ganga Júnior, para o centro de graves acusações de cumplicidade institucional. Ao admitir, aprovar e validar a ascensão de Mário Mapuia Tunga ao cargo de Diretor do Gabinete de Normalização, Auditoria, Compliance e Controlo de Qualidade sabendo perfeitamente que este ostenta um alarmante “perfil vermelho” na administração pública , a liderança máxima da estatal assume a coresponsabilidade por um dos maiores escândalos éticos da governação corporativa no país.
A indignação em fóruns económicos e na sociedade civil resume-se a uma questão direta e inevitável: se Mário Tunga utilizou as suas funções para lesar o Estado ontem na Administração Geral Tributária (AGT), que garantias têm os cidadãos e os parceiros internacionais de que ele não está a continuar a roubar hoje na ENDIAMA, sob a cobertura e complacência direta do próprio PCA Ganga Júnior? Colocar um indivíduo com este histórico criminal pendente no coração da fiscalização de diamantes equivale a entregar a chave do cofre ao principal suspeito.
O Histórico Criminal e a Fuga em “Parte Incerta”
A raiz do escândalo remonta ao processo fiscal onde Tunga atuava como técnico e chefe de fiscalização na AGT. O acórdão judicial emitido à data foi taxativo ao ordenar a extração de cópias dos autos para remessa imediata à Procuradoria-Geral da República (PGR), com o fim de instaurar um processo-crime por fraude e desvios contra si e outros homólogos. Naquela fase, Tunga foi oficialmente declarado em “parte incerta” pelas autoridades policiais e judiciais, uma manobra clássica de fuga para evitar a responsabilização criminal imediata e a prisão.
A Manobra em Portugal e o Regresso Protegido
Em vez de ser capturado e responder perante os tribunais de Angola, o gestor passou um período na Europa a operar no sector privado. Registos comerciais provam que ele fundou a empresa de consultoria Majolas Lda. em Portugal, extinta apenas em janeiro de 2021.
O seu regresso triunfal e a subsequente nomeação protegida por Ganga Júnior sinalizam ao mercado que, no sector diamantífero nacional, o “perfil vermelho” não é um impedimento, mas sim um passaporte para a impunidade. Esta reabilitação institucional sem o devido esclarecimento judicial levanta fortes suspeitas de compadrio e proteção deliberada de redes de interesses que operam à margem da lei.
O Paradoxo do Cúmplice no Topo
A conivência da liderança da ENDIAMA agrava-se pelo facto de Mário Tunga ser hoje o homem forte encarregue de gerir os canais de denúncia, auditoria e combater a fraude interna na concessionária nacional de diamantes. Especialistas apontam que Ganga Júnior não pode alegar ignorância; ao abrigar e empoderar um quadro com mandado de processo-crime, o PCA torna-se cúmplice político e administrativo, destruindo a pouca credibilidade que resta à transparência do sector extrativo nacional.
Até ao momento, o silêncio cúmplice de José Manuel Ganga Júnior e do Conselho de Administração da ENDIAMA impera, recusando-se a justificar aos parceiros comerciais e aos angolanos as razões de manter um suposto criminoso financeiro na liderança da sua integridade institucional.
