A Queda de Jonas Savimbi: Desconfiança, Ruptura com os Acordos de Lusaka e a Estratégia Militar
4 mins read

A Queda de Jonas Savimbi: Desconfiança, Ruptura com os Acordos de Lusaka e a Estratégia Militar

A Queda de Jonas Savimbi: Desconfiança, Ruptura com os Acordos de Lusaka e a Estratégia Militar
Por José Gama
A derrocada e o isolamento de Jonas Savimbi encontram um marco fundamental em meados de 1994, período em que o líder da UNITA passou a rejeitar os entendimentos de paz e a desconfiar profundamente de qualquer tentativa de diálogo com o governo angolano.
O Ponto de Viragem em Junho de 1994
No dia 30 de junho de 1994, enquanto decorriam as negociações em Lusaka, um episódio marcou irreversivelmente a postura de Savimbi. Cercado por um grupo inicial de cerca de 500 pessoas e mantendo apenas treze homens mais próximos no seu círculo imediato, o líder guerrilheiro foi alvo de um bombardeamento militar na zona onde se encontrava.
Para Savimbi, o ataque coincidiu com o momento em que os seus representantes negociavam a paz, levando-o a concluir que havia sido traído e que o governo estaria a usar o processo negocial apenas como fachada enquanto planeava eliminá-lo fisicamente. A partir desse momento, a desconfiança tornou-se total: passou a alternar constantemente de local de dormida entre tendas, carros e diferentes abrigos, convencido de que o Estado pretendia criar uma liderança paralela — a chamada “UNITA Renovada”, mais tarde encabeçada por Higino Carneiro — para o afastar por via do assassinato.
A Rejeição dos Acordos e a Falácia da Vice-Presidência
A desconfiança estendeu-se aos termos políticos propostos nos Acordos de Lusaka. Embora publicamente se ventilasse a atribuição de um cargo de vice-presidência a Savimbi, a análise interna da UNITA apontava que a proposta era vazia de conteúdo real. A estrutura previa uma primeira vice-presidência destinada a Lopo do Nascimento ou a figuras do MPLA, sem que ficassem claras ou asseguradas as competências reais que seriam conferidas ao líder oposicionista. Diante disto, Savimbi rejeitou categoricamente a proposta e cortou os laços com tudo o que estivesse associado ao movimento renovado, impondo sanções severas a qualquer elemento da sua esfera que demonstrasse simpatia pelas correntes dissidentes.
A Estratégia de Contragolpe Militar
Sentindo-se encurralado e isolado, Savimbi optou por uma estratégia de forte retaliação e reorganização militar. Financiado pela exploração de diamantes, procedeu à criação de três grandes brigadas totalizando cerca de 11 mil homens, com o objetivo de tomar três capitais estratégicas para desestabilizar o poder central:
Huambo: Alvo prioritário de projeção de força.

Kuito: Considerado vital por albergar um aeroporto central e servir de acesso direto ao “cofre” das zonas diamantíferas das Lundas.
Malanje: Escolhido por razões táticas geográficas. Os planos de Savimbi incluíam a aquisição de armamento avançado — especificamente mísseis de alta precisão superiores aos tradicionais sistemas Uragan — com o intuito de os posicionar em pontos elevados de Malanje para atingir alvos estratégicos de longo alcance.
Apesar de manter reuniões com figuras associadas ao tráfico de armamento, como Vitter Bootz, Savimbi evitou partilhar abertamente os planos de uma ofensiva em grande escala com as chefias militares tradicionais no terreno, receoso de que os comandantes, muitos deles com familiares em zonas controladas pelo governo, recusassem a missão.
A ofensiva final projetada culminou numa tentativa de assalto à cidade do Cuito, que no entanto esvaziou-se e deteve-se logisticamente nos arredores da vila do Kunge, assinalando o princípio do fim da linha para a estratégia militar de Jonas Savimbi.

Continua….

Autor

  • Redação Makamavulo

    A Redação Makamavulo é responsável pela produção e publicação de conteúdos jornalísticos do Makamavulo, com foco em informação de interesse público, atualidade, política, economia, sociedade, cultura e assuntos internacionais. O nosso compromisso é promover um jornalismo responsável, independente e orientado pelo rigor, pela credibilidade e pelo respeito aos leitores.