CIMEIRA DE LUANDA: João Lourenço exige cultura de prevenção de conflitos e repudia ingerências externas em África
5 mins read

CIMEIRA DE LUANDA: João Lourenço exige cultura de prevenção de conflitos e repudia ingerências externas em África

LUANDA — O Presidente da República de Angola e Campeão da União Africana para a Paz e Reconciliação em África, João Lourenço, defendeu este domingo, 30 de Agosto de 2026, em Luanda, uma mudança radical de paradigma na abordagem da segurança no continente, exortando os líderes africanos a transitar de uma “cultura de reacção às crises” para uma “verdadeira cultura de prevenção dos conflitos”.

A tomada de posição ocorreu durante a sessão de abertura da 21.ª Sessão Extraordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana (UA), evento que reuniu na capital angolana Chefes de Estado, líderes das Comunidades Económicas Regionais (CER) e diplomatas sob o tema “Reforçar os Mecanismos de Prevenção e Resolução dos Conflitos em África”.

A cimeira contou com as intervenções de destaque de Évariste Ndayishimiye, Presidente do Burundi e Presidente em Exercício da UA, e de Mahmoud Ali Youssouf, Presidente da Comissão da União Africana.

Ingerência Externa e a Cobiça por Recursos Estratégicos

No seu discurso de intervenção, o Chefe de Estado angolano alertou para o contexto internacional “convulsivo” e apontou a cobiça geopolítica sobre as riquezas do continente — como o petróleo, o gás natural e as terras raras — como um dos principais factores de desestabilização regional.

“Assistimos à mais descarada violação do Direito Internacional, a disputas pelo controlo hegemónico das reservas das principais fontes energéticas… Para melhor nos atingirem, procuram fragilizar as nossas instituições e sociedades, fomentando divisões que degeneram em conflitos”, denunciou João Lourenço.

Num recado directo a potências estrangeiras envolvidas na crise humanitária no Sudão, o Estadista exigiu a cessação imediata do apoio militar a facções rebeldes e mercenários. “Nós, africanos, não alimentamos as guerras e conflitos que se desenrolam em outros continentes. Exigimos, por isso, o mesmo tratamento de respeito e não ingerência nos nossos assuntos”, enfatizou.

Raio-X às Crises Continentais: Sudão, RDC, Sahel e Somália

Durante a sua alocução, o Presidente angolano passou em revista os principais focos de tensão que travam a concretização da Agenda 2063 (“A África que Queremos”) e do objectivo de “Silenciar as Armas”:

  • República Democrática do Congo (Leste da RDC): Sublinhou que o conflito no Leste da RDC “transcende as fronteiras do país” devido ao tráfico ilícito de recursos, fluxos de refugiados e açambarcamento transfronteiriço. Expressou apoio ao Presidente do Conselho do Togo, Faure Gnassingbé, enquanto mediador da UA, e saudou a convocação em breve do diálogo intercongolês inclusivo.
  • Sudão: Classificou o cenário como uma das maiores crises humanitárias do continente, com risco real de fragmentação do país e contágio no Corno de África e Mar Vermelho, apelando a um cessar-fogo permanente e inclusivo.
  • Região do Sahel e África Ocidental: Advertiu para a expansão do terrorismo transnacional e das mudanças inconstitucionais de governo — cujas raízes associou também aos impactos históricos da intervenção militar europeia na Líbia.
  • Somália e Cabo Delgado: Condenou tentativas de “balcanização” e interferência externa na Somália, reiterando a defesa da sua integridade territorial e apelando à aplicação da Resolução 2719 do Conselho de Segurança da ONU. Sobre Moçambique, reconheceu avanços na segurança em Cabo Delgado, defendendo a sua consolidação.

Reformas Estruturais na União Africana e Lugar Permanente na ONU

Fundamentando o seu discurso no histórico de três décadas de guerra civil que Angola superou, João Lourenço reiterou que África possui um vasto acervo institucional — como o Conselho de Paz e Segurança, o Sistema Continental de Alerta Rápido e a Força Africana em Estado de Alerta —, mas falha na prontidão e coordenação operacional.

Para inverter o quadro, o Campeão da UA para a Paz e Reconciliação propôs:

  1. Fusão de Arquitecturas: Acelerar a integração entre a Arquitectura de Paz e Segurança Africana (APSA) e a Arquitectura de Governação Africana (AGA) para eliminar sobreposições.
  2. Criação de um Centro de Vigilância: Concebido como um instrumento estratégico de monitorização de conflitos para antecipar riscos.
  3. Mecanismo de Sanções Severas: Identificar e responsabilizar actores estatais, redes económicas e indivíduos (nacionais e estrangeiros) que lucram financeiramente com a instabilidade dos países africanos.
  4. Fundo para a Paz: Incrementar as contribuições soberanas dos Estados-Membros, garantindo uma distribuição equitativa dos recursos operacionais.

Concluindo a sua intervenção, o Presidente angolano reiterou que a paz é o pré-requisito inegociável para a integração económica e o desenvolvimento sustentável de África, voltando a exigir a reforma urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas com a inclusão do continente no grupo de membros permanentes com direito a voto e veto.

Autor