O ciberataque à Unitel expõe as vulnerabilidades estratégicas de Angola
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O ciberataque à Unitel expõe as vulnerabilidades estratégicas de Angola

A maior operadora de telecomunicações de Angola entrou no segundo dia de graves interrupções após um ataque cibernético que afetou chamadas de voz, dados móveis e acesso à internet em todo o país.

Com aproximadamente 21 milhões de clientes, a Unitel detém a maior parte das comunicações pessoais, empresariais e institucionais de Angola. A interrupção da rede deixou famílias sem comunicação, prejudicou negócios dependentes da internet, dificultou pagamentos e transações comerciais e afetou serviços de transporte por aplicativo, além de diversas outras atividades cotidianas.

Os prejuízos ainda não foram calculados, mas o impacto econômico e social já é evidente. Cada hora de interrupção significa negócios paralisados, clientes perdidos, transações suspensas e funcionários impossibilitados de trabalhar normalmente.

Em comunicado divulgado em 28 de julho, a Unitel afirmou que o ataque foi detectado às 2h20 da manhã. A empresa disse que seus mecanismos de resposta e contenção foram ativados imediatamente e que suas equipes técnicas e de segurança cibernética estavam trabalhando para mitigar os efeitos do incidente e restabelecer totalmente os serviços.

Fontes familiarizadas com a situação disseram à Maka Angola, no entanto, que o CEO da Unitel, Amílcar Safeca, aguardava a chegada urgente de especialistas estrangeiros para resolver a crise. Segundo as mesmas fontes, a empresa não possui a expertise interna necessária para restaurar todos os sistemas afetados.

O país de origem dos especialistas e a data prevista de sua chegada a Angola estão sendo mantidos em sigilo. A Unitel ainda não divulgou a natureza do ataque, a extensão total dos danos, se dados de clientes foram comprometidos ou quando os serviços serão totalmente restabelecidos.

Uma empresa controlada pelo Estado

A gravidade do incidente é agravada pelo fato de a Unitel estar sob o controle total do Estado angolano.

Metade do seu capital social era detido diretamente pelo Estado através do Instituto para a Gestão de Ativos e Participações Estatais (IGAPE). Os restantes 50% eram controlados indiretamente através da petrolífera estatal Sonangol e das suas subsidiárias.

A participação da IGAPE inclui os 25% anteriormente detidos pela Vidatel, empresa pertencente a Isabel dos Santos, e os 25% anteriormente detidos pela Geni, ligada ao General Leopoldino Fragoso do Nascimento, amplamente conhecido como “Dino”. O Presidente João Lourenço nacionalizou ambas as participações em outubro de 2022.

Embora os processos judiciais relacionados a essas participações não tenham resultado em sentenças definitivas, o Estado prosseguiu com uma oferta pública de 15% das ações da Unitel. A transação trouxe ao mercado ações derivadas de uma estrutura de propriedade cujo status jurídico definitivo permanece incerto.

O ciberataque ocorreu na véspera da estreia das ações da Unitel na bolsa de valores de Angola. O momento escolhido torna ainda mais urgente a transparência na divulgação de informações sobre a segurança da empresa, os prejuízos sofridos e os riscos que seus novos acionistas enfrentam.

O precedente Movicel

A crise também evidencia o declínio da Movicel, que deveria ter oferecido uma alternativa nacional em caso de uma grande falha da Unitel.

Após o Estado assumir o controle majoritário da operadora, inclusive por meio de ações confiscadas, a Movicel entrou em um prolongado colapso financeiro e operacional. A empresa está tecnicamente insolvente, perdeu quase 80% de seus assinantes entre 2021 e 2025 e encerrou o ano passado com pouco mais de 300.000 clientes.

Sua rede está agora praticamente inoperante em muitas partes do país. Portanto, a Movicel não pode mais oferecer uma alternativa viável para os milhões de angolanos afetados pela interrupção dos serviços da Unitel.

Angola possui três operadoras de telefonia móvel, mas a terceira opção, a Africell, opera em apenas seis das 21 províncias do país. Seu alcance geográfico limitado significa que ela não pode fornecer uma alternativa em todo o território nacional nem resolver a concentração de mercado existente.

O resultado é uma perigosa concentração de riscos. Embora Angola tenha formalmente três operadoras de telefonia móvel, a Unitel tornou-se tão dominante que sua paralisação afeta imediatamente grande parte do país e uma parcela significativa de sua atividade econômica.

O Banco Mundial descreveu o mercado de telefonia móvel de Angola como operando, na prática, como um duopólio. No entanto, mesmo essa descrição subestima a situação do país. A Movicel mal funciona, enquanto a Africell não possui cobertura nacional. Para milhões de angolanos, não existe uma alternativa viável à Unitel.

O declínio da Movicel e a presença limitada da Africell privaram Angola da redundância necessária para proteger o país contra falhas técnicas, sabotagem ou ciberataques.

Um alerta para a infraestrutura crítica de Angola.

O incidente da Unitel é mais do que uma simples falha em uma empresa de telefonia móvel. Ele revela a fragilidade de infraestruturas estratégicas das quais milhões de cidadãos, empresas e instituições públicas dependem.

Se a maior empresa de telecomunicações do país pode ser afetada nessa escala e precisa recorrer a especialistas estrangeiros para restaurar seus sistemas, quão resilientes são as outras instituições críticas de Angola diante de um ataque coordenado?

A mesma pergunta deve ser feita em relação ao sistema bancário, às redes de eletricidade, aos serviços de identificação civil, às administrações tributárias e aduaneiras, aos hospitais, aos aeroportos, às instituições de defesa e segurança e aos bancos de dados estatais.

O ataque à Unitel é um alerta nacional. Angola precisa demonstrar sua real capacidade de prevenir, detectar e responder a ameaças cibernéticas, bem como o quanto depende de conhecimento especializado estrangeiro quando sua infraestrutura crítica é atacada.

O silêncio e a falta de transparência não protegem o país. Apenas ocultam vulnerabilidades que um potencial atacante já pode estar explorando.

Autor

  • Redação Makamavulo

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