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João Lourenço, o obreiro da CIVICOP

Luanda : A trajectória política de Angola, independente desde 1975, guarda histórias e protagonistas ligados à paz, à unidade e à reconciliação nacional, que muito contribuíram para a pacificação das famílias de vítimas de conflitos políticos e ajudaram a quebrar tabus alimentados por vários anos.

Por Francisca Augusto, jornalista da ANGOP

Volvidos 51 anos desde a libertação do jugo colonial, permanecem histórias por contar, nomes por identificar e famílias que aguardam pelo momento de
sepultar, com dignidade, os seus entes queridos, mortos e enterrados de forma trágica, em locais desconhecidos ou em valas comuns.

Neste universo de silêncio e incerteza, o processo de reconciliação nacional encontrou uma das suas dimensões mais humanas: devolver identidade aos
mortos, respostas às famílias e memória a uma sociedade que deve procurar, a todo o custo, compreender o seu passado para prevenir erros futuros.

Foi a pensar nessa necessidade que o Presidente da República, João Lourenço, criou, em 2019, a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), uma das iniciativas políticas mais relevantes de aproximação entre os angolanos.

A CIVICOP assumiu a missão de localizar, identificar e devolver às famílias os restos mortais dos cidadãos mortos nos conflitos ocorridos entre 1975 e 2002.

A iniciativa representa uma das dimensões mais sensíveis do processo de reconciliação nacional, ao procurar restituir dignidade às vítimas e proporcionar
às famílias a possibilidade de realizar funerais condignos.

Com esta decisão, o Chefe de Estado colocou a memória das vítimas no centro de uma política de reconciliação que procura reconhecer o passado e criar
condições para superar as divergências da história recente do país. 
 
Desde a sua criação, a CIVICOP desenvolve um trabalho complexo, com localização de sepulturas, exumação de ossadas, recolha de amostras, testes de
ADN e entrega dos restos mortais às respectivas famílias. 

Em cerimónias públicas, a comissão devolve restos mortais de cidadãos mortos durante os conflitos, permitindo às famílias prestar a última homenagem e
realizar funerais de acordo com as suas tradições culturais e religiosas.

Um dos primeiros momentos de grande significado, no âmbito deste processo, ocorreu a 31 de Maio de 2019, com a entrega dos restos mortais de Jonas
Savimbi, fundador da UNITA, à família e à direcção do partido.

A entrega dos restos mortais permitiu a realização das cerimónias fúnebres e constituiu um marco assinalável no processo de reconciliação nacional.

Outro momento relevante ocorreu a 21 de Fevereiro de 2025, em Luanda, com a entrega às respectivas famílias dos restos mortais dos generais Altino Sapalalo “Bock”, Antero Vieira e Constantino Ndala “Assobio da Bala”.

As ossadas dos antigos oficiais foram localizadas numa vala comum em Tchandji, província do Bié, no âmbito dos trabalhos da comissão.

A identificação e a entrega dos restos mortais representaram mais uma resposta às famílias que durante anos aguardaram informações sobre o destino dos seus entes queridos.

ADN: a ciência ao serviço da reconciliação

De lá para cá, o processo de identificação das vítimas dos conflitos políticos entrou numa nova fase, com o recurso à ciência forense.

No Laboratório Central de Criminalística, em Luanda, especialistas analisam diariamente amostras biológicas e comparam perfis genéticos para estabelecer
correspondências entre as ossadas e as familiares de pessoas desaparecidas.

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