Advogado David Mendes teceu duras críticas à política económica e financeira do Governo angolano
Advogado David Mendes critica subsídio aos combustíveis e dívida interna do Governo angolano
Em declarações recentes, o advogado David Mendes teceu duras críticas à política económica e financeira do Governo angolano, com especial destaque para a gestão do subsídio aos combustíveis, o impacto nas empresas públicas e a acumulação de dívidas internas.
Preço dos combustíveis e situação da Sonangol
David Mendes começou por reafirmar a sua posição face aos preços dos combustíveis em Angola: “Eu sempre defendi uma coisa que os políticos não gostam, por causa do populismo: o preço do combustível deve subir nos limites internacionais”.
O advogado alertou que a Sonangol se encontra numa posição financeira insustentável. “A Sonangol não tem capacidade financeira para suportar a aquisição de combustível. Em outras palavras, a Sonangol até poderia declarar falência”. Desmistificando a percepção pública sobre a saúde financeira da petrolífera estatal, acrescentou: “Nós ficamos a pensar todos os dias ‘não, a Sonangol é o que tem o dinheiro’, não. A Sonangol gasta a maioria do seu dinheiro comprando combustível que o Estado subvenciona, mas não repõe o dinheiro”.
Impacto no sector privado e dívida interna
Ao abordar a presença de outras companhias no mercado de revenda, David Mendes questionou o motivo de estas não importarem combustível diretamente para revender em Angola. “Porque o combustível é subvencionado. Sendo o combustível subvencionado, essas empresas têm que esperar que o Estado coloque dinheiro nas suas contas”.
O jurista classificou o executivo angolano como um encargo para o tecido empresarial local: “Quem lida com o governo sabe que esse governo é um mau pagador. Esse governo leva empresas a falências. Muitas empresas já faliram por terem ousado aceitar fazer negócios com o governo — a nível dos hospitais (fornecimento de medicamentos, de refeições, de limpeza), a nível das administrações municipais, provinciais”. Como consequência, apontou o acúmulo de lixo visível nas ruas devido ao incumprimento de pagamentos pelo Governo.
David Mendes enfatizou a assimetria na gestão da dívida: “Se preocupa em pagar a dívida externa, mas não se preocupa em pagar a dívida interna. A dívida externa dá boa imagem ao Estado, a dívida interna dá desemprego”.
Liderança, populismo e privatizações
Para o advogado, o combate à crise exige coragem ideológica e superação das promessas eleitorais. “É preciso que nós tenhamos coragem — aqui não é coragem política, coragem de nacionalismo —, compreender que o populismo tem limite e que o preço do combustível praticado em Angola é insuportável para qualquer economia”.
Mendes apelou ao consenso entre os partidos no poder e a oposição: “Se o partido no poder decidir aumentar o preço do combustível para corresponder com a necessidade mercantil e financeira, a oposição vai mobilizar as massas contra o governo. E hoje eu pergunto: se fossem vocês o governo, o que é que fariam? Todo o mundo vende promessas, (…) vivem da utopia, vendem utopia, não querem o país real”.
Relembrando o recente aumento do preço dos combustíveis, destacou que o alívio orçamental esperado não se concretizou: “Nem chegou para pagar parte da dívida que o Estado tem com a Sonangol”.
Por fim, questionou a manutenção da companhia aérea nacional, a TAAG, sob gestão pública: “Estamos a gastar dinheiro com a TAAG, milhões e milhões todos os anos. Por que é que não se vende a TAAG? Qual é o interesse em se manter a TAAG?” Comparando com outros contextos internacionais, referiu que “países muito mais avançados, como o Brasil, deixou de ter a Varig, Portugal está a vender a TAP. Por que é que nós queremos nos prender a uma empresa que só dá prejuízos?”
Fonte: Radio Kianda
