O Activista político Dito Dalí considera que a oposição angolana, particularmente a UNITA, deve retirar lições da experiência recente da esquerda brasileira e adaptar as suas estratégias de mobilização e comunicação às novas dinâmicas políticas e digitais.
Num texto de reflexão sobre os desafios da oposição angolana rumo às eleições de 2027, Dalí aponta dois erros que, na sua avaliação, contribuíram para a perda de capacidade de atração da esquerda brasileira entre os jovens: a excessiva dependência de uma única liderança e a subestimação do poder das redes sociais e dos algoritmos.
Segundo o autor, a centralidade de Luiz Inácio Lula da Silva na esquerda brasileira não foi acompanhada, durante largos períodos, por uma renovação suficientemente forte das lideranças. Embora reconheça o espaço ocupado por figuras como Fernando Haddad e Guilherme Boulos, defende que a esquerda demorou a criar uma nova geração de dirigentes capazes de disputar o eleitorado jovem.
“Não basta ter história: é preciso construir futuro”, escreve Dalí, defendendo a emergência de novos rostos, ideias e formas de comunicação política.
O segundo erro identificado está relacionado com a utilização das plataformas digitais. Na sua análise, a direita radical brasileira teria compreendido mais cedo a importância de disputar a atenção dos jovens através de vídeos curtos, podcasts, influenciadores, WhatsApp, TikTok, Instagram e YouTube.
Dalí sustenta que esta estratégia permitiu à extrema-direita transformar sentimentos de insatisfação e descontentamento em narrativas políticas simples, explorando temas como insegurança, imigração, valores familiares e desconfiança em relação às instituições.
O autor considera ainda que o discurso antissistema foi redefinido pela direita radical brasileira, que passou a apresentar instituições como o Supremo Tribunal Federal, universidades, imprensa e setores progressistas da cultura como representantes do “sistema”.
Para Dalí, a principal lição é que a disputa política contemporânea passa também pela capacidade de conquistar atenção e construir narrativas capazes de gerar identificação.
UNITA deve renovar comunicação, defende Dalí
Ao transferir a análise para Angola, o autor considera que a UNITA precisa de modernizar profundamente a sua comunicação política e abandonar uma dependência excessiva dos métodos tradicionais de mobilização.
“Não podemos continuar a fazer política no século XXI com ferramentas concebidas para o século XX”, defende.
Comícios, rádio, televisão e imprensa continuam, na sua perspetiva, a desempenhar um papel importante, mas já não seriam suficientes para alcançar uma geração que consome informação predominantemente através do telemóvel.
Dalí defende, por isso, uma estratégia digital permanente, com investimento na formação de quadros em comunicação digital, edição de vídeo e produção profissional de conteúdos adaptados às diferentes faixas etárias.
Outro ponto central da proposta é a renovação dos rostos da oposição.
O autor defende que a UNITA deve identificar e promover lideranças provenientes das comunidades e da sociedade civil, incluindo jovens com capacidade de comunicação e influência nas diferentes províncias.
Questiona, nesse sentido, a relação entre os secretários provinciais do partido, a sociedade civil e as redes sociais, bem como a capacidade dessas estruturas de dialogarem com a chamada geração Z.
Para Dalí, a renovação não deve limitar-se à idade dos dirigentes, mas incluir novas linguagens, novas formas de relacionamento com os cidadãos e maior abertura a figuras emergentes.
“Não basta ter razão, é preciso saber comunicar”
Na sua reflexão, Dalí argumenta que uma proposta política, por mais consistente que seja, terá impacto limitado se não for compreendida pela população.
“Não basta ter razão, é preciso saber comunicar a razão”, afirma, defendendo uma comunicação capaz de explicar propostas relacionadas com emprego, educação, saúde, habitação, desenvolvimento, soberania, democracia e justiça social.
O autor rejeita, contudo, a ideia de transformar a política num simples espetáculo. Na sua perspetiva, trata-se antes de reconhecer que a disputa política começa muito antes das eleições e que as redes sociais passaram a desempenhar um papel decisivo na formação da opinião pública.
Dalí critica igualmente aquilo que considera ser a utilização das instituições de ensino superior como espaços de mobilização política ligados ao MPLA e à JMPLA.
Na sua leitura, a oposição deve desenvolver estratégias capazes de chegar diretamente aos jovens e contrariar aquilo que considera ser uma máquina de propaganda favorável ao partido no poder.
A aposta nas redes sociais, segundo o autor, permitiria estabelecer uma comunicação mais direta com os cidadãos e responder àquilo que classifica como desinformação política.
“A era dos comícios não acabou, mas começou a era dos algoritmos”
A reflexão termina com um apelo à inovação e à renovação das estratégias políticas da oposição angolana.
Para Dalí, a UNITA deve preparar-se desde já para a disputa eleitoral de 2027, em vez de concentrar a comunicação apenas no período oficial de campanha.
“A era dos comícios não acabou. Mas começou a era dos algoritmos”, escreve.
O autor conclui defendendo uma maior abertura a novas figuras e discursos capazes de responder às mudanças da sociedade angolana e lança uma meta política para 2027: “Mais de um milhão de cidadãos na rua.”
POLÍTICA
Dito Dalí aconselha UNITA a aprender com a esquerda brasileira
