RDC: Agosto de 2006, quando os campos de Kabila e Bemba transformaram Kinshasa num palco de confrontos armados
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RDC: Agosto de 2006, quando os campos de Kabila e Bemba transformaram Kinshasa num palco de confrontos armados

KINSHASA — Em agosto de 2006, a República Democrática do Congo viveu um dos momentos mais delicados da sua transição política, quando forças ligadas ao então presidente Joseph Kabila e ao vice-presidente e candidato presidencial Jean-Pierre Bemba se enfrentaram em Kinshasa, colocando a capital congolesa sob forte tensão.

Os confrontos ocorreram num período particularmente sensível: o país acabava de realizar, em 30 de julho de 2006, as primeiras eleições presidenciais multipartidárias em décadas, processo considerado fundamental para consolidar a saída da longa instabilidade política e militar que marcou a RDC.

Nenhum candidato obteve maioria absoluta na primeira volta. Joseph Kabila ficou em primeiro lugar e Jean-Pierre Bemba em segundo, levando os dois adversários a uma segunda volta presidencial.

Kinshasa mergulhada em confrontos

A tensão política rapidamente assumiu uma dimensão militar. Entre 20 e 22 de agosto de 2006, forças leais aos dois campos envolveram-se em violentos confrontos na capital.

Tiros de armas pesadas e combates nas ruas provocaram medo entre os habitantes e levantaram dúvidas sobre a capacidade das instituições congolesas de preservar o processo eleitoral.

Um dos episódios mais graves ocorreu quando a residência de Jean-Pierre Bemba foi atingida durante os confrontos, num momento em que se encontravam no local diplomatas estrangeiros que participavam numa reunião destinada a discutir a crise.

A situação obrigou a uma intensa intervenção diplomática internacional e à mobilização dos mecanismos de segurança existentes no país para tentar separar as forças rivais e impedir uma escalada ainda mais perigosa.

Kabila e Bemba: dois campos disputavam o futuro político da RDC

A rivalidade ultrapassava uma simples competição eleitoral. Tanto Kabila como Bemba dispunham de estruturas políticas e de segurança com origem no complexo período das guerras congolesas e no governo de transição instalado antes das eleições.

Bemba, antigo líder do Movimento de Libertação do Congo (MLC), ocupava uma das vice-presidências do governo de transição. Kabila, por sua vez, exercia a Presidência desde 2001, após a morte do seu pai, Laurent-Désiré Kabila.

Assim, quando os dois chegaram à disputa presidencial de 2006, o confronto político coexistia com uma realidade extremamente sensível: os principais adversários possuíam forças armadas ou elementos de segurança fortemente ligados aos seus respectivos campos.

Eleições prosseguiram apesar da crise

Apesar da violência de agosto, o processo eleitoral não foi interrompido. A segunda volta realizou-se em 29 de outubro de 2006.

Joseph Kabila acabou declarado vencedor, enquanto Jean-Pierre Bemba contestou os resultados através das instituições competentes. A vitória de Kabila foi posteriormente confirmada pela justiça congolesa.

A tensão, contudo, não desapareceria. Em março de 2007, Kinshasa voltaria a ser cenário de graves confrontos envolvendo as forças governamentais e a guarda de Bemba, episódio que terminaria por alterar profundamente a posição política e militar do antigo vice-presidente.

Uma página marcante da história congolesa

Duas décadas depois, os acontecimentos de agosto de 2006 permanecem como uma lembrança de quão frágil era a transição democrática congolesa.

O confronto entre os campos de Kabila e Bemba demonstrou que realizar eleições era apenas uma parte do desafio. Para a RDC, igualmente decisiva era a construção de instituições capazes de substituir a lógica das forças político-militares pela competição democrática e pelo funcionamento efetivo do Estado.

Agosto de 2006 ficou, assim, marcado na memória de Kinshasa como o momento em que uma disputa eleitoral esteve perigosamente próxima de se transformar numa nova confrontação de grandes proporções no coração da capital congolesa.

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