FSDEA lucra USD 527 milhões em 2025: o que está por trás dos números do Fundo Soberano de Angola?
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FSDEA lucra USD 527 milhões em 2025: o que está por trás dos números do Fundo Soberano de Angola?

Ele não acusa antecipadamente a instituição de má gestão. Parte de um facto verificável — os USD 527 milhões — e abre espaço para investigar como o resultado foi produzido, que activos estão por trás dele e qual é a situação patrimonial efectiva do Fundo.

A investigação preliminar já revela uma evolução que merece destaque: o FSDEA terminou 2024 com USD 3,99 mil milhões em activos, passou para USD 4,19 mil milhões em Junho de 2025, chegou a USD 4,407 mil milhões em Setembro e encerrou 2025 com aproximadamente USD 4,716 mil milhões.

Um lucro de USD 527 milhões que merece ser desmontado

O Fundo Soberano de Angola encerrou 2025 com um dos resultados financeiros mais expressivos da sua história.

Segundo dados divulgados esta semana, o resultado líquido atingiu USD 527 milhões, contra aproximadamente USD 176 milhões em 2024 — crescimento próximo de 200%. O resultado bruto alcançou USD 545 milhões, enquanto os activos totais chegaram a USD 4,716 mil milhões.

À primeira vista, os números revelam uma instituição em forte crescimento.

Mas uma análise financeira do FSDEA exige uma pergunta adicional:

de onde vieram exactamente esses USD 527 milhões?

Os dados intercalares permitem começar a encontrar a resposta.

No primeiro semestre de 2025, o Fundo já apresentava USD 187,96 milhões de resultado líquido. Desse desempenho, USD 123,76 milhões provinham de ganhos de capital da carteira líquida, particularmente da valorização de instrumentos de dívida e acções, com destaque para tecnologia. Juros e dividendos contribuíram com outros USD 25,26 milhões.

Ou seja, uma parcela relevante dos resultados estava directamente relacionada com a valorização dos mercados financeiros internacionais.

Em Setembro, aparece outro elemento importante

As demonstrações relativas aos primeiros nove meses de 2025 aprofundam a fotografia.

Até 30 de Setembro, o lucro líquido já tinha alcançado USD 335,855 milhões.

Os ganhos de capital da carteira líquida somavam USD 175,905 milhões, acompanhados de USD 18,539 milhões em dividendos e USD 19,005 milhões em juros.

Mas existe outro número particularmente interessante.

Os investimentos alternativos estavam avaliados em aproximadamente USD 849,361 milhões, e o FSDEA reconheceu USD 136,419 milhões em resultados provenientes de subsidiárias e empresas controladas.

Segundo o próprio Fundo, uma parte substancial desse movimento estava relacionada com a FSDEA International Holding PCC e a sua participação na Pensana PLC.

Aqui começa uma das áreas que uma investigação independente deve aprofundar.

É necessário distinguir quanto dos USD 527 milhões finais corresponde a:

ganhos efectivamente realizados em dinheiro; dividendos e juros recebidos; valorização de títulos ainda detidos; reavaliações de participações; e resultados contabilísticos provenientes de subsidiárias e empresas associadas.

Lucro contabilístico e entrada de caixa não são necessariamente a mesma coisa.

O número de USD 4,716 mil milhões também precisa de contexto

Há outra questão que não deve passar despercebida.

Em 2024, o FSDEA informou possuir USD 3,99 mil milhões em activos totais.

Mas apenas USD 2,43 mil milhões correspondiam à carteira de investimentos.

Desses:

USD 1,73 mil milhões estavam em activos líquidos;

USD 704 milhões estavam em investimentos alternativos;

e, crucialmente, o FSDEA declarava possuir aproximadamente USD 1,44 mil milhões a receber do Estado angolano.

Esse último número é fundamental para compreender o balanço.

Os USD 1,44 mil milhões eram contabilizados como activo do Fundo, mas não representavam necessariamente dinheiro disponível para investimento.

Por isso, conhecer apenas o total de USD 4,716 mil milhões em activos em 2025 não é suficiente.

A questão que deve ser colocada ao FSDEA é:

Quanto dos USD 4,716 mil milhões corresponde actualmente a activos financeiros líquidos, quanto corresponde a investimentos alternativos e quanto permanece registado como valores a receber do Estado angolano?

Essa informação permitiria avaliar com muito mais precisão a verdadeira posição financeira do Fundo.

De USD 3,99 mil milhões para USD 4,716 mil milhões

Existe, contudo, uma evolução patrimonial claramente positiva em 2025.

Os activos passaram de:

USD 3,99 mil milhões — Dezembro de 2024;

USD 4,19 mil milhões — Junho de 2025;

USD 4,407 mil milhões — Setembro de 2025;

para aproximadamente USD 4,716 mil milhões — Dezembro de 2025.

Isso representa crescimento aproximado de 18% num único exercício.

Os capitais próprios terão igualmente alcançado USD 4,512 mil milhões, equivalentes a cerca de 95,7% dos activos totais.

É um indicador patrimonial relevante e deve ser reconhecido.

Mas ainda precisamos saber qual foi a origem exacta dos aproximadamente USD 726 milhões adicionados ao activo durante o exercício: rentabilidade dos investimentos, reavaliações, recuperação de créditos, novas entradas do Estado ou combinação desses factores.

Investimentos alternativos merecem atenção especial

Essa carteira é especialmente importante porque contém activos cuja avaliação pode ser mais complexa do que títulos negociados diariamente numa bolsa.

Em Setembro de 2025, os investimentos alternativos atingiam aproximadamente USD 849 milhões.

No exercício anterior, o FSDEA informou que a carteira alternativa estava concentrada em áreas como agricultura, mineração, hotelaria e saúde. O Fundo também passou a deter participações em instituições financeiras africanas, incluindo AFC, TDB e Afreximbank.

São investimentos que podem produzir retornos estratégicos importantes.

Mas precisamente por não serem todos activos com cotação diária de mercado, a investigação precisa determinar quem faz as avaliações, quais metodologias são utilizadas, qual auditor independente valida esses valores e quanto dos ganhos reconhecidos deriva de reavaliações.

Transparência torna-se ainda mais importante devido ao passado

A preocupação não é meramente teórica.

O histórico do Fundo inclui o conhecido episódio envolvendo a Quantum Global, que expôs fragilidades importantes na anterior estrutura de governação.

Uma análise publicada pelo Carnegie Endowment em 2024 utiliza precisamente o FSDEA como estudo de caso para demonstrar que uma instituição pode formalmente apresentar bons indicadores internacionais de transparência e, simultaneamente, possuir problemas graves de governação não detectados por esses mecanismos.

Isso não significa que os mesmos problemas persistam actualmente.

Significa que o histórico aumenta a necessidade de escrutínio independente.

O actual FSDEA afirma operar segundo os Princípios de Santiago, utilizar auditores independentes e possuir mecanismos de controlo, gestão de riscos e prestação de contas.

Há ainda uma obrigação institucional particularmente interessante.

Segundo a avaliação do International Forum of Sovereign Wealth Funds, baseada no Decreto Presidencial n.º 214/14, o Conselho de Administração deve apresentar trimestralmente ao ministro das Finanças um relatório posteriormente remetido ao Presidente da República.

Esses relatórios devem incluir desempenho, rentabilidade, situação interna e investimentos por classe de activos, incluindo notas específicas sobre qualquer investimento que represente 5% ou mais da carteira.

A questão jornalística passa então a ser:

até que ponto essas informações detalhadas estão acessíveis ao público angolano?

Os USD 527 milhões são reais. Mas precisamos saber que tipo de lucro representam

Não existem, com os elementos actualmente disponíveis, fundamentos para desvalorizar o desempenho alcançado pelo FSDEA em 2025.

Pelo contrário.

Os números mostram crescimento consistente ao longo dos três períodos divulgados durante o exercício, e a carteira líquida terá terminado o ano com rentabilidade de 14,65%, muito acima da expectativa média anual de 5% definida na estratégia de alocação de activos.

A questão central não é, portanto, saber se o Fundo apresentou lucro.

Apresentou.

A investigação deve determinar a qualidade desse lucro.

Quanto veio de caixa?

Quanto veio de dividendos e juros?

Quanto corresponde à valorização das bolsas internacionais?

Quanto resulta da valorização de empresas participadas?

Quanto decorre de avaliações de activos alternativos?

E, principalmente, qual é hoje o valor efectivamente investível e líquido do património soberano angolano?

São essas respostas que permitirão determinar se 2025 representou apenas um extraordinário exercício contabilístico ou o início de uma transformação estrutural do Fundo Soberano de Angola.

Até que essas informações sejam conhecidas em detalhe, os USD 527 milhões constituem uma notícia financeira importante — mas ainda não contam toda a história.

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