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As Duas Angolas: O Contraste Entre o Crescimento Económico e a Dura Realidade da Fome

​As Duas Angolas: O Contraste Entre o Crescimento Económico e a Dura Realidade da Fome​Há duas Angolas. Uma aparece nos relatórios, nas estatísticas, nos discursos oficiais e nas apresentações governamentais.​A outra está à porta dos supermercados, dos restaurantes e dos hotéis, de mão estendida, ou mergulhada dentro de um contentor de lixo à procura da última refeição. Na primeira, a economia cresce, o desemprego diminui, abrem-se empresas, anunciam-se investimentos e multiplicam-se inaugurações. Os números garantem-nos que estamos melhores. Na segunda, crianças de cinco ou seis anos já aprenderam uma das mais cruéis profissões disponíveis no país: pedir. E são cada vez mais. Já não estamos perante episódios isolados ou perante meia dúzia de crianças que aparecem nos mesmos locais. Nas principais zonas de Luanda, basta parar o carro, entrar num supermercado ou sentar-se na esplanada de um restaurante para perceber que alguma coisa está profundamente errada.​Crianças que deviam estar na escola esperam à porta para pedir comida, dinheiro ou qualquer coisa que possam levar para casa. Algumas já dominam as técnicas do negócio: sabem onde esperar, quem abordar, quando insistir e quando desistir. Aprenderam demasiadamente cedo aquilo que nenhuma criança devia precisar de aprender: a sobreviver à pobreza.​Mais chocante ainda é o que acontece junto aos contentores. Há cada vez mais pessoas a disputar aquilo que os outros deitam fora. Nos locais onde é depositado o lixo de alguns dos principais hotéis de Luanda, a procura de restos de comida chega a provocar confrontos físicos. O desperdício de uns tornou-se a refeição de outros. Esta é provavelmente uma das imagens mais violentas das desigualdades que construímos.​Não adianta responder com taxas de crescimento do PIB, números sobre o emprego ou estatísticas sobre o investimento privado. Os indicadores são importantes e não devem ser desprezados. Mas também não podem servir de biombo para esconder aquilo que está diante dos nossos olhos. Uma economia pode crescer e, simultaneamente, deixar uma parte significativa da população para trás. Pode criar riqueza sem a distribuir. Pode reduzir estatisticamente o desemprego sem criar empregos capazes de retirar famílias da pobreza. Pode inaugurar estradas, aeroportos, centralidades e hotéis, enquanto crianças disputam moedas à porta desses mesmos símbolos de modernidade.​O problema começa quando nos habituamos. Quando deixamos de reparar na criança que bate no vidro do carro, quando passamos indiferentes pelo homem que remexe o contentor. Quando consideramos normal encontrar famílias inteiras a pedir, quando a miséria passa a fazer parte da paisagem urbana, como os candeeiros, os táxis ou os buracos nas estradas.​Há qualquer coisa de obsceno numa sociedade que consegue produzir riqueza suficiente para sustentar fortunas milionárias, carros de centenas de milhares de dólares, apartamentos de luxo e festas extravagantes, mas não consegue impedir que crianças de cinco anos tenham que pedir comida. Não se trata de condenar quem tem dinheiro.

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