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Auzílio Jacob nega fome em Angola porque há galinhas e cabritos à venda: mas quem não tem dinheiro para comer?

Governador do Icolo e Bengo recorre à existência de alimentos nas ruas para contestar relatos de fome no país. Argumentação levanta questões sobre a realidade das famílias vulneráveis e contrasta com os alertas internacionais sobre insegurança alimentar, pobreza e desnutrição em Angola.

LUANDA — MAKAMAVULO NEWS | SOCIEDADE E POLÍTICA

As recentes declarações do governador do Icolo e Bengo, Auzílio Jacob, sobre a situação alimentar em Angola colocaram no centro do debate público uma questão fundamental: será que a existência de galinhas, cabritos e outros alimentos à venda nas ruas significa que os angolanos não passam fome?

Durante um acto político de massas do MPLA, o governante rejeitou a ideia de que Angola esteja mergulhada numa crise generalizada de fome, contrapondo aos relatos divulgados nas redes sociais a presença de vendedores de alimentos nas vias públicas.

“Um país que tem fome não tem cabrito e galinha na rua”, afirmou Auzílio Jacob, segundo declarações divulgadas pela imprensa angolana.

O governador argumentou ainda que, num cenário de fome generalizada, os cidadãos procurariam apropriar-se dos alimentos disponíveis, estabelecendo uma comparação com crises humanitárias vividas pela Etiópia.

A intervenção procurou transmitir uma imagem de normalidade económica e social. Contudo, o argumento apresentado não responde a uma das principais dimensões da insegurança alimentar: a capacidade financeira das famílias para adquirir os alimentos que encontram nos mercados.

A fome não se mede pela quantidade de galinhas nas ruas

A existência de produtos alimentares nos mercados não significa necessariamente que estejam ao alcance de todas as famílias.

Um cidadão pode atravessar diariamente um mercado cheio de alimentos e regressar a casa sem conseguir comprar o necessário para alimentar os filhos.

Uma mãe desempregada pode observar galinhas e cabritos expostos para venda sem possuir recursos suficientes para adquirir sequer os produtos básicos de uma refeição.

Da mesma forma, uma família pode ter acesso a pequenas quantidades de comida e continuar numa situação de insegurança alimentar, devido à insuficiência de nutrientes, à irregularidade das refeições ou à falta de rendimentos.

É precisamente esta distinção que torna insuficiente o raciocínio apresentado pelo governador.

A fome não se manifesta exclusivamente através de mercados vazios, saques ou situações extremas de desespero coletivo.

Pode existir onde há supermercados abastecidos, restaurantes em funcionamento e comerciantes a vender alimentos, mas também cidadãos sem capacidade económica para os comprar.

Dados internacionais contrariam a ideia de ausência de insegurança alimentar

A realidade alimentar de Angola tem sido objeto de acompanhamento por organizações internacionais.

O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas estima que cerca de 1,8 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar associada aos efeitos da seca provocada pelo fenómeno El Niño, enquanto aproximadamente 2,2 milhões necessitam de assistência.

A mesma organização identifica níveis preocupantes de desnutrição infantil, particularmente entre comunidades vulneráveis.

Estes indicadores não significam que toda a população angolana esteja numa situação de fome, mas demonstram que o problema existe e exige respostas públicas consistentes.

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