Nunes Júnior com soluções duvidosas para crise de água em Benguela
Sistemas recuperados pelo Governo Provincial dependem de furos em zonas consideradas tecnicamente problemáticas. EPASB poderá realizar análises laboratoriais para determinar se a água distribuída às populações é própria para consumo.
A estratégia adoptada pelo Governo Provincial de Benguela para aliviar a crise de abastecimento de água nos bairros periféricos do município está a levantar dúvidas entre especialistas do sector, depois de terem sido recuperados antigos chafarizes alimentados por furos cuja água já havia suscitado problemas de potabilidade.
Segundo uma investigação publicada pelo Novo Jornal a 5 de Setembro, o Governo Provincial de Benguela avançou com a recuperação destas infra-estruturas sem um parecer prévio da Empresa Provincial de Águas e Saneamento de Benguela (EPASB), entidade pública com conhecimento técnico das características e limitações das zonas onde os furos estão localizados.
Um dos equipamentos apresentou mesmo uma insuficiência técnica poucos dias depois da sua reinauguração, realizada a 20 de Agosto, situação que reforçou as interrogações em torno da sustentabilidade da solução apresentada às comunidades.
EPASB poderá analisar água em laboratório
Uma das questões centrais é a qualidade da água retirada dos furos.
De acordo com o Novo Jornal, a EPASB poderá ter de utilizar o seu laboratório para avaliar a água produzida pelos fontanários e determinar se reúne condições para consumo humano. Apesar das dúvidas técnicas, o governador de Benguela, Manuel Nunes Júnior, sustenta que existe tratamento da água.
O problema está também na própria caracterização das infra-estruturas. O Governo Provincial apresenta-as como sistemas de captação, tratamento e distribuição de água, mas a investigação jornalística refere que, na prática, estão em causa chafarizes abastecidos por furos executados em áreas consideradas problemáticas por especialistas.
A controvérsia ganha maior dimensão porque estes equipamentos não são propriamente novos. Segundo a mesma fonte, tinham permanecido abandonados durante alguns anos precisamente devido às dificuldades em garantir água potável. Agora foram recuperados sem aprovação prévia da EPASB, que acabou por ser chamada a prestar apoio técnico.
Crise de água agrava pressão sobre o Governo
A recuperação dos chafarizes ocorre num contexto particularmente difícil para Benguela.
No final de Agosto, a própria EPASB informou que a disponibilidade de água no rio Catumbela, principal fonte de captação de água bruta do sistema, tinha diminuído durante o período seco. Segundo informação institucional reproduzida publicamente, a capacidade de captação na estação de bombagem caiu de 4.600 metros cúbicos por hora para 3.000 m³/h, afectando a regularidade do abastecimento em Benguela, Lobito, Navegantes e Baía Farta.
Esta redução ajuda a explicar a pressão sobre as autoridades para encontrarem fontes alternativas capazes de levar água às populações. Contudo, uma solução de emergência não elimina a necessidade de garantir segurança sanitária.
No caso dos furos agora recuperados, a questão essencial passa, portanto, pela certificação técnica da água antes de esta ser apresentada às comunidades como adequada ao consumo.
Problemas técnicos colocam projecto sob escrutínio
A situação deixa o Executivo provincial perante uma questão fundamental: a água que está a ser disponibilizada é efectivamente potável?
Até que existam resultados laboratoriais ou documentação técnica conclusiva tornada pública, não é possível afirmar apenas com base nas declarações políticas que a água dos furos cumpre todos os parâmetros necessários para consumo humano.
Da mesma forma, as dúvidas levantadas na reportagem não significam, por si só, que a água esteja comprovadamente contaminada. O ponto central é justamente a necessidade de análises laboratoriais e validação técnica capazes de esclarecer a controvérsia.
A participação da EPASB torna-se, neste contexto, particularmente importante, tanto para avaliar a qualidade da água como para determinar se os sistemas recuperados possuem condições técnicas para funcionar de forma contínua.
EPASB enfrenta também tensão interna
A empresa pública atravessa, simultaneamente, dificuldades laborais. Em Agosto, as comissões sindicais da EPASB ameaçaram avançar para uma greve, exigindo diálogo com o conselho de administração sobre atrasos salariais e revisão do qualificador ocupacional.
O cenário coloca ainda mais pressão sobre uma empresa que desempenha um papel essencial na produção, controlo e distribuição de água na província.
Para as populações dos bairros periféricos, entretanto, o problema continua a ser imediato: ter acesso regular a água, mas sobretudo a água comprovadamente segura para consumo.
A recuperação de chafarizes pode representar uma resposta temporária à escassez, mas a sua eficácia dependerá da capacidade das autoridades de demonstrarem, através de análises técnicas independentes e transparentes, que a água disponibilizada não representa riscos para a saúde pública.
A controvérsia deixa igualmente uma questão de governação: por que razão infra-estruturas anteriormente abandonadas devido a problemas relacionados com a potabilidade foram recuperadas sem parecer prévio da empresa pública especializada no abastecimento de água?
É uma pergunta que exige esclarecimentos do Governo Provincial de Benguela e resultados técnicos da EPASB.
