Denúncia: Filha de Bento Bento Gastou Mais de 45 Mil Euros em Jato Privado no Verão Europeu
O luxo dos filhos não é o problema. A origem da riqueza pode ser.
Não é correto afirmar que os angolanos criticam o luxo dos filhos de antigos ou actuais dirigentes simplesmente por inveja. Essa interpretação reduz um problema político e social complexo a uma questão de ressentimento.
Um governante, enquanto cidadão privado, tem direito ao seu património e os seus filhos têm, naturalmente, direito a usufruir dos bens legitimamente adquiridos pela família. Mas quem exerce funções públicas tem uma responsabilidade muito maior: deve administrar os recursos do Estado com justiça, transparência, imparcialidade e respeito pelo interesse colectivo.
É precisamente aí que começa o verdadeiro debate.
Se uma família possui uma fortuna construída por actividades empresariais legítimas, investimentos, heranças ou outros rendimentos comprováveis, não existe, por si só, qualquer razão para condenar os filhos por viajarem em jactos privados ou passarem férias em destinos luxuosos.
Mas quando a riqueza aparece associada a pessoas que exerceram cargos públicos, a sociedade tem o direito de perguntar como essa riqueza foi construída, sobretudo quando o património cresce de forma incompatível com os rendimentos oficialmente conhecidos.
Não se trata de proibir o luxo. Trata-se de exigir responsabilidade pública.
Um governante não pode tratar os recursos públicos como se fossem propriedade pessoal ou beneficiar determinados grupos em detrimento do interesse nacional. Deve tomar decisões pensando no cidadão, e não na família, nos amigos ou nos interesses particulares.
Por isso, a questão não deveria ser simplesmente: “Por que os angolanos se incomodam com o luxo dos filhos dos dirigentes?”
A pergunta mais importante é:
“De onde veio a riqueza e houve alguma utilização indevida da função pública para construí-la?”
Se a resposta for não, o luxo é uma questão privada. Se houver indícios de corrupção, tráfico de influência, favorecimento, enriquecimento ilícito ou utilização indevida de recursos públicos, então deixa de ser apenas uma questão de estilo de vida e passa a ser uma questão de interesse público e de justiça.
Angola não precisa de uma sociedade onde todos sejam obrigados a viver da mesma maneira. Precisa de uma sociedade onde as mesmas regras sejam aplicadas a todos, independentemente do apelido, da família ou da posição política.
O problema não é o filho do governante andar de jacto privado. O problema seria o Estado ser usado para financiar, directa ou indirectamente, esse estilo de vida.
E é justamente por isso que quem ocupa cargos públicos deve aceitar um nível de escrutínio muito maior do que um cidadão comum.

